BLOG
30 de agosto de 2016 / Nenhum comentário.
1 FOTO TINGIMENTO BLOG

A LINGUAGEM ELEGANTE DAS CORES NATURAIS

Para gostar de cores naturais é preciso ser simples

Cor é para quem gosta de se habitar pelo olhar, para quem vê beleza na luz e procura o que a sombra esconde, no mundo das coisas, no coração e na mente.

A sensibilidade às cores naturais, as que vemos quando abrimos as nossas janelas para todos os dias desta vida, está disponível para todos, em todas as horas do dia e da noite. Nas manhãs, as cores são infantis, cantarolantes e saltitantes. No cedo da tarde são calorosas e energéticas, como a juventude. A noitinha sombreiam o que era forte e decidido. Na noite, cores só se mostram a quem as procurar em silêncio e com olhos apertados e sensíveis a cinzas e pratas. Nessas horas, cores se mostram principalmente dentro do imaginado e sonhado. Assim, são as cores para quem pensa em si, no outro, na vida, e se gosta.

Cores naturais não se comunicam por gritos e sobrepondo valores sobre o que está próximo. Cores naturais são para gente sensível, para os que já foram e são habitados pelo amor e que o querem profundamente, mesmo tendo perdido o poder de decidir quando um outro está implicado. Quem gosta de boa companhia, seja de gente, bicho, paisagem, comida e música bem feita e bem tocada, bom vinho, água limpa, das quenturas e friozinhos de dias plenos de vida, gosta das cores da natureza. Elegância é a linguagem das cores naturais, a mesma que aproxima e promove diálogos em voz média, baixa, em silêncios. Cores naturais estão sempre com a tonalidade e tensões corretas.

Plantas se alimentam de luz e se pintam de verde-clorofila nos dias de verão. Na primavera dão o concerto anual em Allegros, Vivaces e Allegrissimos. No Outono se pintam de vermelho, o penúltimo umbral visível das cores. Neste tempo da madureza de folhas e frutos, afloram açúcares e vitaminas, licopenos, carotenos, antocianinas e taninos e os verdes são subtraídos com dourados, vermelhos, marrons e violetas avinhados. É tempo de meditação e contemplação em banco de jardim e soledades, de olhar para o passado com amorosidades. É tempo de interromper a força do passado sobre a alegria e a fé. É tempo de mirar o futuro com alegria sobranceira e elegante. É tempo de ternuras, almas quentinhas, de estabelecimento interior. É tempo de andamentos em ma non troppo.

Inverno é vida com silêncio interior, desafobações e generosidades consigo e com o outro. É tempo dos habitáculos da máxima simplificação – cores neutras, cinzas, preto e branco. Tempo de sombras escuras transluzidas de laivos, não de facas e raios. É bom tempo para afinar corpo e alma para se tocarem em andantinos e em alturas, métricas e velocidades ajustadas à consciência de ter vivido a melhor vida. Que Adagios, os necessários, não tragam tristezas, melhor, ternuras.

Para gostar de cores naturais é preciso ser simples ao ponto de internalizar a semiose de uma flor que se desenvolveu em par com os insetos. Um precisa do outro, como eu do próximo. Para tingir com os recursos da natureza – plantas, vitaminas, ácidos, taninos, minerais oxidados – é preciso ter amor dentro. É preciso não querer o excesso. É preciso ser um arranjador simples na composição de escalas e famílias. É necessário saber ouvir, cheirar e ver com ternura porque não haverá grandes Allegros e Fugas de cavallerias nestas cores.

As cores naturais são sutis e poucas se atrevem às vivacidades primárias A redação dos argumentos colorísticos da natureza é cuidadosa e escrita para milênios. A escala é curta, incluindo monocórdios. Nada é absoluto e pleno. Todas as cores deixam entrever outras. São raros os pretos plenos, raros os azuis limpos, poucos os amarelos francos em luz e força, difíceis os vermelhos que não sejam sombreados. Marrons médios e Beges, Violetas silenciosos, Bordôs, Vinhos e Rosas secos são os mais pródigos. A clorofila é o mais fujidia dos corantes naturais e Verdes verdadeiros são raros e existem só nas Terciários e Quaternários lembrando terras cúpricas e nobres. Poucos são os Azuis, porém decididos nas variedades de plantas da espécie indigofera e nos pretos do fruto verde do Jenipapo, nos corações das bananeiras e no ferro acidificado. Em suma, há baixa presença de cores Primárias e Secundárias nas famílias dos corantes naturais, tudo evolui para as Terciárias e Quaternárias, a região das cores para quem não gosta de sons, tonalidades e cheiros fora da harmonia.

Na natureza as harmonias de alto contraste e brilho estão nos peixes, animais marinhos e nos pássaros. Pouca coisa nos mamíferos. Se necessárias, as escolhas de valores altos devem ser amparadas por cores sintéticas. Cores sintéticas artificiais, utilizadas em processos híbridos, são os violinos, cornetas, clarins e demais instrumentos agudos da orquestra das cores naturais.

Tingimentos naturais se explicam na sustentabilidade dos processos fabris, na cultura e na tradição, no mercado de nichos e de baixa oferta das coisas raras. Faltam produtos com a etiqueta mais oportuna e poderosa do mercado voltado para o novo comprador que se mostra hoje e que se firmará no futuro: Produto Elegante, Cores Atemporais, Fabricado com Recursos Renováveis e Processos Eco Responsáveis, Feito à Mão, Peça Única, Arte Assinada.

A economia do mundo de hoje não pode ter seus altos e excessivos volumes suportados somente por tingimentos naturais, principalmente o setor têxtil. A impressão digital jato de tinta, a menos agressiva das estamparias, é bem vinda para servir na lacuna das poucas opções sustentáveis da voraz indústria têxtil, a segunda poluidora de águas e solo. Corantes e pigmentos naturais tem presença forte e alto volume na indústria de alimentos, cosméticos e tinturas de cabelo por serem os únicos que podem tingir corpos, ser ingeridos, tocados e beijados sem danos.

Gravura 1015

Comentar